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sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

PREGAÇÃO AOS CACHORROS


E:\Foto de Pádua Santos.jpg
Por: Pádua Santos(*)
"Cada um pede conforme espera, e cada um espera conforme crê."
Padre Antônio Vieira
Santo Antônio, um dos santos mais populares do cristianismo, venerado tanto no Oriente quanto no Ocidente, considerado o Doutor da Igreja ou o santo de todo o mundo, nasceu em Lisboa no ano de 1195 e foi batizado com o nome de Fernando.
Foi homem honrado e bem-aventurado, visto como um milagre contínuo e um dos maiores pregadores de todos os tempos. Teve outros nomes, tais como António de Lisboa e Antônio de Pádua. Como este último foi aquele que originou o meu, venho agora, não na qualidade de pregador erudito e santo como foi ele, e sim de admoestador menor e pecador, mas honrando tal patronímico, também fazer minha pregação.
Faço-a pautado na humildade para que, em nenhum momento, ouse querer imitar a gloriosa e divina inspiração daquele que, segundo seus biógrafos, tinha um exterior polido, gestos elegantes e aspecto atraente - cognominado “Martelo dos Hereges”. Mas assim como ele, que um dia pregou aos peixes, pretendo pregar também aos irracionais, aos cachorros – os cachorros da Academia Parnaibana de Letras.  
Em primeiro lugar, para que não pairem dúvidas à minha pregação, e não sirva de má interpretação por parte dos energúmenos, é de bom alvitre iniciar dizendo quem são tais cachorros.
São os abandonados, excluídos e sarnentos cães de rua que são atualmente abrigados no quintal da nossa academia, a APAL, porque merecem, assim como os bem tratados das casas dos ricos, o amparo dos homens de bem.
Foram para ali tangidos por uma integrante da Associação Parnaibana de Proteção aos Animais, entidade ligada à ONG 7 Vidas, e ali permanecem no aguardo de donatários que tenham a boa vontade de lhes oferecer uma residência onde possam encontrar alimentação para o corpo e também a amizade que é a alimentação para a alma. E eles têm alma? O filósofo e matemático Pitágoras afirma que sim: “os animais dividem conosco o privilégio de terem uma alma”.
O Padre Antônio Vieira, um dos homens mais influentes do século XVII no campo da política e da oratória, ao pregar na cidade de São Luís do Maranhão, no ano de 1654, lembrou que Santo Antônio resolveu pregar aos peixes porque os homens não queriam lhe ouvir. Eu também, através desta crônica justificadora, prego aos cachorros para que os homens me ouçam:
- Ouçam-me, oh vagabundos vira-latas, e protestem contra os ladrões: os desalmados, aqueles que não obstante vossa frágil vigilância, já arrombaram portas e janelas de nosso silogeu e dali subtraíram uma mesa e algumas estantes de ferro. Não levaram os livros porque felizmente (ou infelizmente) ladrão não gosta de livro;
- Ouçam-me, oh vadios “cabíris” das ruas de Parnaíba! E com os seus latidos cansados, digam aos políticos parnaibanos que nossa Academia de Letras necessita de ajuda para que possa, pelo menos, pagar um vigia para tentar estancar a dilapidação de seu patrimônio!...
- Saibam vocês, oh famélicos ladrejantes, que o mesmo Vieira, no famoso sermão acima aludido, lembrou que quando Cristo falou aos pregadores foi para lhes dizer: “Vós sois o sal da terra” (Mateus: 5, 13). Isto porque o efeito do sal é impedir a corrupção. Embora se saiba que muitas vezes o sal não salga... Mas quanto a nossa academia, digam isso a quem de direito: não concorda com a corrupção. Quando ela tenta, em vão, se conveniar com o poder público, pretende tão somente meios necessários para contribuir com a cidade, preservando sua biblioteca, que pode oferecer leitura gratuita aos parnaibanos; divulgar a cultura e realizar concursos literários que com certeza ajudarão os concorrentes, principalmente os mais jovens, a se afastarem da ignorância.
- Ouçam-me, oh cansados farejadores dos becos de nossa urbe; ouçam-me e transmitam, mesmo com os seus latidos já desgastados pelo tempo e pela doença, aos ladrões e também aos homens que detêm o poder. Digam que são vocês, doravante, os intermediários dos acadêmicos, que não merecem ser roubados e que há mais de um lustro lutam por um convênio que não sai nunca. E digam, finalmente, através dos seus sonoros latidos do abandono, que somente me resta, como Presidente da Academia Parnaibana de Letras, pregar para vocês como fez Santo Antônio de Pádua aos peixes, porque os homens, lamentavelmente, não querem me ouvir...
(*)Pádua Santos é o atual Presidente da Academia Parnaibana de Letras. Exerce tal função há vários mandatos. Atualmente vem torcendo para que se manifeste algum colega acadêmico, com prestígio no meio político, afim de que, assumindo tão honrosa função, torne-se possível a efetivação de um convênio com a Prefeitura Municipal de Parnaíba, convênio este perfeitamente viável, prometido aos acadêmicos pelo senhor Prefeito, já totalmente formalizado e com todas as despesas documentais pagas.