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sexta-feira, 17 de março de 2017

Comida de trabalhadores escravizados no Cajueiro da Praia tinha até fezes de rato

Flagrante feito por fiscais do Ministério do Trabalho mostra situação de trabalhadores em situação análoga à escravidão em Cajueiro da Praia, litoral do Piauí. Veja vídeo. 
Auditores fiscais do trabalho descobrem alojamento precário para trabalhadores (Foto: Reprodução)

Sobre o chão de esterco de bode se ergue a estrutura precária, não mais que um pequeno telhado, onde vários trabalhadores dormiam depois de um dia inteiro extraindo palha de carnaúba. As “paredes” do alojamento (panos e lonas) protegem o local onde eram feitas as refeições noturnas: carne seca e farinha. Ao ver de perto a comida, um auditor fiscal se admira: “Olha! Tem bosta [sic] de rato na farinha”, exclama.

O vídeo mostra um flagrante feito pelos fiscais do Ministério do Trabalho no final de 2015, na zona rural do município de Cajueiro da Praia, litoral do Piauí, na Fazenda Tocos. O precário alojamento fica a menos de 200 metros da pista, próximo à praia de Barra Grande.

Paulo César Lima, auditor fiscal do Ministério do Trabalho, comenta que haviam mais de 10 trabalhadores em situação precária no local, todos vindos de pequenas localidades do Ceará, principalmente do povoado Pit Bull. Lá, recebem adiantamento pelo trabalho, que fica com a família do trabalhador. Aqui, recebem pagamento em pó de carnaúba. “Faltava registros, faltava equipamento de proteção individual, alojamento era inadequado, sem sanitário, sem água, comida precária. Almoçavam no meio da mata, no meio do trabalho, e jantavam em casa a comida que os chefes deixavam”, relatou Paulo César.

Um caso semelhante apareceu na chamada “Lista Suja” dos empregadores acusados de colocar trabalhadores em situação análoga à escravidão, divulgada na última segunda-feira (13), provando que situações parecidas continuaram a ocorrer no litoral do Piauí. De acordo com a lista, 125 pessoas foram encontradas trabalhando em situação análoga à escravidão no Piauí, entre 2015 e 2017.  

O trabalho de extração de palha de carnaúba é bastante pesado. Os trabalhadores ficavam algumas semanas no local, e então eram levados para outras fazendas. “Esses já vinham de Santana da Carnaúba, onde tinham feito o mesmo trabalho. Eles são levados para outra fazenda, depois outra, depois outra... todas nas mesmas condições”, disse o auditor. “Eles ficam como que detidos. Não presos, mas detidos, porque não têm como voltar para o Ceará. As vezes, eles nem sabem em que estado estão, se Ceará ou Piauí. Só são levados de um carnaubal para uma mata, depois para uma fazenda, sem nunca passar por cidades”.

Os trabalhadores são contratados por um atravessador, ou "chefe de grupo", que é contratado pela empresa que deseja comprar a matéria-prima extraída. Eles oferecem o trabalho e pagam o adiantamento às famílias dos trabalhadores. São os chefes também quem levam comida, preparam a área onde será feita a extração. Paulo César explica que esses atravessadores são, geralmente, amigos dos trabalhadores, e que também recebem pouco pelo trabalho.

“Os trabalhadores têm total consciência de que são explorados. Mas mesmo assim tentam proteger os atravessadores. Eles têm medo de perder aquele trabalho. Defendem, dizem que são bem tratados. Mas a exploração é clara”, disse. Os atravessadores encontrados no local foram autuados, mas nenhum foi preso.

O auditor fiscal disse que a grande luta é para ligar as indústrias e os grandes empresários à esse tipo de flagrante. “Esse peão que traz os trabalhadores não é quem enriquece, ele também é pobre. O pó da carnaúba é vendida para uma usina beneficiadora qualquer, e depois exportado para Fortaleza. Essa pessoa em Fortaleza é quem ganha bem”, diz Paulo. 

Segundo ele, casos assim acontecem em várias regiões do Piauí, e já foram encontrados em cidades como Buriti dos Lopes, Esperantina, Caxingó, Caraúba, José de Freitas, Bom Principio, e em municípios do sul do estado.


Por: Andrê Nascimento/O Dia | Edição: Jornal da Parnaíba