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segunda-feira, 26 de junho de 2017

A política afasta o indivíduo da essência humana!

Por: Fernando Gomes(*)
Aventurei-me por uns dias no mandato de vereador aqui em Parnaíba (2009-2012). Foi um período de muita aprendizagem. Como já me manifestei em outras ocasiões: dei o melhor de mim! Tentei nos pleitos seguintes retomar o mandato eletivo, em 2012 como vice-prefeito e em 2016 como vereador novamente, no entanto, em ambas tentativas não obtive o mesmo sucesso de 2008.
Faço essa digressão para deixar claro que o que me move neste momento não é a mágoa de não estar mais no mandato, mas revelar de cátedra o maior aprendizado dessa fase vivida por mim: a política afasta o indivíduo da essência humana. Uma constatação que faço a tempo de me reconciliar comigo mesmo. Não me defenestro da política, mas cerco-me de cuidados antes não levados em conta.
A política, enquanto possibilidade de servir, me encanta. No entanto o “sistema” político-partidário e eleitoral está apodrecido. Leia-se o desnudamento das peripécias apontadas nas apurações da Operação Lava Jato e que foram e ainda são promovidas pela elite que controla o poder em todas as esferas do nosso país. Quer seja no Executivo, no Legislativo ou no Judiciário. As eleições há muito é uma farsa!
Há, no entanto, os que defendem que o processo eleitoral tem legitimidade pelo fato de o povo ter o “direito de escolher” o seu candidato. Corruptos ou honestos, os eleitos são escolhidos de modo “legítimo”, uma vez que ocorre consulta à base, debate de propostas e concordância partidária, por meio de votação. Quem valida uma eleição é o povo, em sua pluralidade cultural, religiosa, ética e moral.
É mais fácil “justificar” do que discernir o certo do errado. Mas de que “povo” se está falando? Uma maioria de miseráveis que sequer tem as condições mínimas para ter e permitir à sua família uma vida digna? Sem letras, sem teto, sem trabalho e sem saúde não há que se falar em justiça social e cidadania, pilares de uma democracia.
As escolhas nas urnas não refletem o que de fato deve ser primado numa seleção legítima da representação política, quais sejam: como: história de vida, formação profissional e intelectual, configuração de antecedentes, vinculação partidarista, plataforma política, ficha limpa com a justiça e projeto de campanha registrado no Tribunal Regional Eleitoral (em se tratando de cargo majoritário).
Com “Le Discours de la Servitude Volontaire” (O Discurso da Servidão Voluntária, escrito em 1552), compreendemos que a gênese da desumana opressão exercida pelos poderosos aos menos favorecidos é atemporal e universal. Escrita como um mero panfleto militante, aos 16 ou 18 anos pelo Pensador francês Etienne de La Boétie, enquanto estudante de Direito, esmiúça os porquês que levam a multidão a se permitir escravizar, cega e voluntariamente, a se dispor a servir.
Até parece que Etienne estaria prevendo o futuro da terra tupiniquim. Ele comenta em seu discurso que até mesmo os tiranos se espantavam como o povo pode suportar um homem que lhes faz mal; utilizando disfarces religiosos, tomando aspecto de certas divindades e doando-lhes todo tipo de divertimento para se protegerem da má vida que levam. Outro aspecto importante a ressaltar a respeito dos tiranos é que eles não governam sozinhos, mas são acompanhados por uma escória humana.
Guarda-se aqui alguma semelhança com o populismo?! E com a politicagem dos bajuladores?!
Em volta do tirano se reúne as piores pessoas, os ambiciosos e avarentos com a finalidade de participarem dos saques que serão feitos contra o povo. Os que giram em volta do tirano e mendigam seus favores, não se limitam a fazer o que ele diz, têm de pensar o que ele deseja e, muitas vezes, para ele se dar por satisfeito, têm de lhe adivinhar os pensamentos. Não existe condição mais miserável do que viver sem ter nada de seu, sujeitando o seu o corpo e sua vida a outra pessoa.
Desta reflexão se tira que a essência humana é perdida nesse modelo de compadrio e profunda corrupção. Quão deplorável é a condição daqueles que apoiam o sistema. O tirano não está em condições de amar ou ser amado, nem muito menos se pode com ele estabelecer uma relação próxima da amizade; porquanto esta pressupõe igualdade, integridade e lealdade: “Não pode haver amizade onde está a crueldade, onde está a deslealdade, onde está a injustiça; entre os maus, quando se juntam, há uma conspiração, não uma companhia; eles não se entreamam, mas se entre temem; não são amigos, mas cúmplices”. Disse Etienne e, o seu olhar procura percorrer todas as instâncias por onde passa o poder, na forma como se institui e se sustenta, mostrando que se equiparam na mesma condição servil tanto os que estão subordinados a toda a hierarquia quanto os que se submetem imediata e tão-somente ao tirano.
O nosso país, o nosso estado, a nossa cidade não pode ser refém de um sistema de poder, segundo o qual a autoridade política concede uma atenção exclusiva aos pobres, no intuito de conquistá-los, não de emancipá-los. “Uma dominação que não é percebida por quem é dominado”. Eis a ideologia em voga, uma ideologia que escraviza e desumaniza o indivíduo. Onde está a essência humana?!
(*) Fernando Gomes, sociólogo, eleitor, cidadão e contribuinte parnaibano.