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segunda-feira, 12 de junho de 2017

Trump e Francisco: extremos sobre a percepção socioambiental...

Por: Fernando Gomes (*)
Na primeira semana de junho se comemora a “Semana do Meio Ambiente”. Ações e discursos ecoam mundo afora, especialmente no dia 5 em que é dedicado ao dia mundial do meio ambiente. Um recorte importante para o atual momento pode ser observado pelas atitudes do Papa Francisco e de Donald Trump que protagonizaram um debate que ainda vai render muitas discussões na seara ambiental.
Mas, o que é mesmo meio ambiente? A quem interessa falar de meio ambiente? Qual a abordagem que fazemos? Afinal qual a nossa prática para enfrentar os desafios socioambientais?
Não sem razão a questão ambiental ficou, estrategicamente, limitada às questões meramente preservacionistas, numa abordagem romântica e factual. Falar de meio ambiente, no discurso hegemônico, ficou restrito a falar dos bichos, das plantas, da água... Não interessa aos poderes dominantes discutir o cerne da questão. Historicamente se conseguiu fazer com que o próprio ser humano se sentisse o “dominador da natureza” e que ele não era “parte dela”. Dois erros com graves consequências!
Falar de meio ambiente é falar de vida! É falar do esgoto que corre a céu aberto pelas ruas da cidade, é falar da educação que não forma cidadãos, é falar da maioria da população que agoniza e morre nos corredores dos hospitais, é falar da representação política sem qualidade, da corrupção, da violência, enfim é assumir a vida e suas expressões de modo objetivo e concreto. Além disso, muitas vezes, quando ouvimos falar sobre o cuidado com o meio ambiente, corremos o risco de achar que esta realidade está distante de nós. Porém, tudo isso é parte de uma estratégia que leva a sociedade a não compreender o que está na essência dessa questão: nós não vivemos uma crise ambiental, mas uma crise civilizatória.
Esta é a verdade: os problemas socioambientais que atormentam a sociedade são decorrentes de um modelo equivocado de organização social. E, isso não é tratado de forma clara! A complexidade da questão perpassa um desequilíbrio profundo entre valores e fatos. Uma dissociação crescente entre o sistema natural da vida humana e a estrutura artificial-formal produzida pelo modelo de desenvolvimento econômico em vigor no seu afã de racionalizar o mundo.As dimensões da vida cotidiana, tal como o manejo do tempo, as relações de convivência, a comunicação social, a produção de alimentos, assim como fenômenos mais alarmantes como as mudanças climáticas, são dependentes da harmonia entre valores e fatos, ou seja, da forma como nos organizamos socialmente.
O papa Francisco traz à tona um debate sufocado pela economia, pela tecnologia e também pela cultura ao afirmar que existe “outra coisa” mais importante a ser discutida na atualidade: a destruição do meio ambiente. Pois ela prejudica a todos, mas especialmente aos mais pobres. Ele apresentou em 24 de maio de 2015 a encíclica “Laudato Sí” (Louvado Seja) – Sobre o cuidado com a Casa Comum, dedicada ao meio ambiente, na qual apela para a responsabilidade de todos na proteção do planeta, "que está sendo destruído". A Encíclica toca em aspectos fundamentais da questão, antes negligenciados por muitos.
Na contramão das preocupações e responsabilidades com a manutenção dos processos vitais no planeta está o presidente norte americano, Donald Trump que anunciou no dia 1º de junho de 2017 a retirada de seu país, o segundo maior poluidor do mundo, do Acordo de Paris, firmado em 2015 por 196 países com o intuito de reduzir o aquecimento global. "A partir de hoje, os Estados Unidos cessarão toda a implementação do Acordo de Paris não vinculativo e os encargos financeiros e econômicos draconianos que o acordo impõe ao nosso país", disse Trump.
Uma visão acrítica dos fenômenos que têm diminuído a qualidade socioambiental pode ser fatal ao futuro da humanidade. Esta parece ser a de Trump! É preciso que se avalie criticamente o meio em que se vive e a forma como as decisões são tomadas. Mais ainda, quem as toma?! Por isso, é preciso formar uma consciência ambiental mais atenta às formas de ação humana em relação à natureza e, possibilitar com que essa conscientização seja capaz de limitar condutas agressoras. Ainda mais além, o grande desafio é que se desenvolvam ações que se proponham a libertar o ser humano de regras de condutas estabelecidas por concepções que o prendem a uma lógica de produção e consumo. Aqui, lê-se o pensamento do Papa.
A melhoria do meio ambiente envolve, portanto um processo de reeducação embasado num conjunto de fatores econômico, político, social e cultural que atuam juntos. Trata-se, também, de uma opção ideológica valorizar a questão ambiental que tem a ver com as formas de se fazer política. Trump e Francisco expressam a realidade de dois mundos que vivemos: um concentrador e excludente e o outro que nos chama a repensar a forma de ser e estar no planeta. Para onde vamos?!
(*) Fernando Gomes, sociólogo, eleitor, cidadão e contribuinte parnaibano.