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domingo, 24 de setembro de 2017

A morte suspeita do bem-te-vi

Por:Pádua Marques(*)
Nesta manhã silenciosa de sábado minha irmã Rosário ao regar as plantas do jardim me chamou pra dizer que um bem-te-vi estava morto na calçada em frente de nossa casa. Pra mim sempre vai ser motivo de imensa tristeza a morte de um passarinho, quanto mais de um bem-te-vi. E mais ainda neste inicio de primavera, estação da qual os passarinhos são os grandes anunciantes.
E ali mesmo depois de correr pra dentro de casa e apanhar a máquina fotográfica, registrei aquele momento triste, igual quando as pessoas fazem com qualquer coisa ou ocorrido hoje em dia e depois jogam nas ditas redes sociais, fiquei a imaginar se aquela morte poderia ser um acidente na rede elétrica. Mas também me ocorreu imaginar que poderia ter sido um infarto do miocárdio. Passarinhos também têm coração.  
Ou um acidente vascular cerebral, que nós chamamos de avecê. Passarinhos têm também cérebro, talvez até mais inteligente que o cérebro dos homens. Sei lá. Pode ser tudo hoje em dia. Até uma bala perdida. Uma pedrada certeira desferida por um menino malvado. Se bem que hoje em dia não existem mais meninos que caçam passarinhos. Ou até mesmo uma bala perdida, igual no Rio de Janeiro e onde todo santo dia morre mulher, velho e menino.  Porque o Brasil está sem controle. O Brasil perdeu o rumo de casa. O Brasil está sem governo.
Nos últimos anos, voltando ao assunto dos passarinhos, esses amigos têm sido motivo de minha observação, digamos científica. Pela manhã bem cedo ao deixarem os galhos das mangueiras do quintal de minha vizinha e que lhes serviram à noite de cama e abrigo, estes passarinhos de penas amarelas e pretas, barulhentos e caçadores extraordinários ficam cantando e chamando os companheiros que vão sair pelo mundo à cata de alimentos ou galhos secos para os ninhos.
E eu fico de meu sossego aqui em casa ainda por um bom tempo debaixo das cobertas a acompanhar com o ouvido, eles saindo pra mais um dia de trabalho. Bem-te-vis mais se parecem com aquela diarista que sai de manhã bem cedo pra fazer faxina nas casas dos ricos e remediados e acaba acordando a rua inteira com toda aquela zoada dos infernos. Passam o dia inteiro andando á procura de alimentos pra si e de quebra levam pros filhotes que ficaram de bico aberto no ninho escondido em alguma mangueira ou sapotizeiro.
Agora a tristeza de ver morto na calçada perto de meu portão aquele passarinho. Vejo aquele bem-te-vi de olhos sem vida com a mesma tristeza que fico sabendo pela televisão, pelos blogs e portais, deste ou daquele acidente de trânsito que deixou sem vida no meio do asfalto o pedreiro ou a diarista que iria começar mais um dia de trabalho. Como a vida está ficando sem valor. No final da tarde eu vou voltar a olhar pra rua e pra o poste da rede elétrica. Alguns estarão lá e cantando. Olham eles o vazio do céu à espera o companheiro.
Os bem-te-vis costumam ficar na minha antena de internet no final da tarde. E dali eles ficam olhando e cantando, um canto de chamada uns pros outros. Igual fazem os mestres de turnos das grandes fábricas ou faziam os capatazes nas fazendas de café ou de laranja no interior de São Paulo. Os bem-te-vis, igual aos operários, trabalham muito e pouco são reconhecidos. Qual o direito deles? Simplesmente voltarem num final de tarde pra casa. Porque falta segurança pra os passarinhos, calcule pra os trabalhadores.
E depois de terem certeza de que todos estão no bando os bem-te-vis procuram finalmente o rumo de casa pra mais uma noite de descanso. Amanhã será outro dia. Mais um dia, se o deus dos bichos deixar. Se foi um choque da rede elétrica, um surto,  um infarto do miocárdio ou um acidente vascular cerebral nunca vai se saber depois de uma perícia do SAMU. Bem que deveria existir um SAMU de passarinhos.  Mas aquele pobre bem-te-vi será apenas mais um morto entre a rua e a calçada.
(*)Pádua Marques é jornalista e escritor