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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Com a falta de alteridade, sobram intolerância, arte e miséria!

 Por: Fernando Gomes(*)
A exposição “Queermuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, em cartaz há quase um mês no Santander Cultural, em Porto Alegre, foi cancelada após uma onda de protestos nas redes sociais. A maioria se queixava de que algumas das obras promoviam blasfêmia contra símbolos religiosos e também apologia à zoofilia e pedofilia.
Recolhi algumas impressões manifestadas sobre a polêmica, de parte a parte. Não entendo de arte, não sou crítico de arte, mas isso não me impede de me posicionar sobre este episódio. Não tenho qualificação, nem a pretensão de analisar as representações artísticas expostas, mas me passa a necessidade de reflexão sobre tudo polemizado. O que penso sobre isso é o que vai aqui...
A minha manifestação, embora pautada no respeito à opinião alheia, não é desprovida dos pré-conceitos que internalizei ao longo da minha vida. Parto de uma primeira constatação e dela não consigo me livrar: a influência da minha formação Cristã! Com isso para dizer que carregamos conosco toda a carga do processo de socialização que absorvemos ao longo da vida. Somos influenciados por pressupostos, assimilamos hábitos e costumes! Por mais esforço que o indivíduo faça, a neutralidade objetiva e plena não existe. A imparcialidade, a objetividade, condição daquele que permanece neutro não é fácil de aplicar.
Mesmo com esta dificuldade que é do indivíduo, penso que o problema maior decorre da falta de alteridade humana! Que é o respeito pela natureza ou condição do que é outro, do que é distinto de si... Um dos princípios fundamentais da alteridade é que o homem na sua vertente social tem uma relação de interação e dependência com o outro. Por esse motivo, o "eu" na sua forma individual só pode existir através de um contato com o "outro". Quando é possível verificar a alteridade, uma cultura não tem como objetivo a extinção de uma outra. Isto porque a alteridade implica que um indivíduo seja capaz de se colocar no lugar do outro, em uma relação baseada no diálogo e valorização das diferenças existentes.
Indo ao ponto da polêmica. Antes do aspecto moral do insulto a elementos sagrados, a exposição, carrega em si algo passível de questionamento ético: uso de recurso público por uma instituição financeira que não precisa! A exposição foi viabilizada pela captação de 800 mil reais por meio da Lei Rouanet. Quantos grupos culturais, país afora, amargam a falta de patrocínio?! Poderia o Santander promover esta e outras mostras de arte sem ter que concorrer com a sofrível e gigantesca massa de artistas que pelejam por um apoio mais singelo?! Pouco se discutiu isso, sobraram impropérios na briga pela razão!
A moral hegemônica foi colocada em questão. As campanhas morais estabeleceram o que é normal e o que é anormal, indicando que é preciso eliminar a suposta anomalia para restabelecer a paz social. O confronto foi travado em termos binários: de um lado, santos e de outro, demônios. 
Uns gostaram e outros desaprovaram a exposição! Guardado o sagrado direito de manifestação, "em defesa da liberdade de expressão artística e das liberdades democráticas", tira-se outra constatação: quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana! Conclusão chegada pelo Santander ao voltar atrás e cancelar a exposição com medo de um forte boicote e de manchar a imagem da instituição financeira. A economia, sempre impondo-se!
Antonio Grassi, ex-presidente da Fundação Nacional de Artes e atual diretor executivo do Inhotim, acha lamentável que uma exposição seja interrompida dessa forma. "A arte é o melhor lugar para debater. Essas ideias de intolerância são incompatíveis com a arte. Acabar com a exposição é uma censura". Convicto de que a arte era importante para "justamente nos fazer refletir sobre os desafios que devemos enfrentar em relação à questões de gênero, diversidade, violência entre outros". E a percepção do outro?
Cabe o bom debate! Aos liberais ou reacionárias, como se intitularam de parte a parte, quem está afinal desprezando a liberdade e os direitos fundamentais e quer impor sua visão de mundo aos demais?!
Discutir sobre o que está em jogo no âmbito de debates públicos não deve ser pautado por moralismos de ocasião. Esta mesma sociedade que defendeu e atacou a exposição parece adormecida frente à violência moral e ética estimulada por um modelo de organização social perverso, concentrador e excludente. Quem nos alerta para a constante existência dos perigos que vivemos decorrentes da frouxidão moral a qual estamos submetidos? Entre um carnaval e outro, programas de televisão degradam a família, destacam a glamourização do crime e bestializam as pessoas. Das novelas ao besteirol do big brother, entre outros temas imbecis em documentários sensacionalistas, a televisão impõe o que convém ao mercado. Há mais esperteza que ética em nosso meio. Mas é preciso lembrar que o homem mais esperto das cinzas ainda será um cadáver! Lembremo-nos: com a falta de alteridade, sobram intolerância, arte e miséria!
(*) Fernando Gomes, sociólogo, eleitor, cidadão e contribuinte parnaibano.