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domingo, 8 de outubro de 2017

Só nos resta o pessoal do cafezinho

Marcius Melhem – Folha de S.Paulo
Desde a invenção da TV Câmara e da TV Senado nós temos, além de náusea, uma sensação de estar por dentro do que acontece ali. Porém, aos poucos, vamos vendo que não.

A atividade parlamentar se dá talvez 10% ou 15% na frente das câmeras. O restante se dá nos gabinetes, corredores, comissões, e demais cantinhos não televisionados das duas casas –sem falar nos hangares, restaurantes e encontros "fora da agenda oficial".
Eles têm certeza que, longe da tribuna, estão livres e a salvo do Brasil. E estarão até que uma categoria silenciosa da história brasileira resolva contar o que sabe: o pessoal do cafezinho.
Apenas eles têm acesso a todos os parlamentares, a cada escaninho do Congresso, entram e saem silenciosamente de todos os lugares. Mais que isso, a posição em que trabalham –pelas costas dos políticos, levemente curvados à frente, bem no raio dos cochichos, numa ação ritualística de servir café que pode durar o tempo que for– é perfeita pra captar todos os segredos inconfessáveis da república.
Como normalmente o pessoal do cafezinho se reveza entre todos os gabinetes, juntos têm partes importantes de uma história que não nos é contada.
Jamais sugeriria isso, por se tratar de algo flagrantemente ilegal –coisa rara no Congresso, mas naquele paletó de garçom ainda cabe fácil um gravador.
Aí alguém pode argumentar que os políticos provavelmente param de conversar algo ilegal quando o garçom adentra o recinto. Duvido. Primeiro porque esconder crimes não tem se mostrado a especialidade dessa gente. E além disso o pessoal do cafezinho é tão onipresente que rápido se torna invisível.
Eles são tudo que nos resta em meio ao descrédito geral, à desesperança, à sensação de que ninguém é capaz de frear a desfaçatez da classe política que sequestrou o Estado brasileiro e não nos cobra resgate porque não quer devolver mesmo.
Pessoal do cafezinho, uni-vos!
Se organizem, juntem as peças que vocês têm desse quebra-cabeça e botem a boca no mundo.
Lembram do Eriberto França? Motorista do então presidente Collor? Ele foi fundamental pra contar como PC Farias pagava despesas particulares de Collor.
Um motorista. Vocês são muitos!
Nos entreguem esses caras de bandeja. O Brasil agradece.