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sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Seu Lunga: Impaciente, direto e sincero

O impaciente Seu Lunga em sua lojinha. Foto Orlando Brito
Por: Orlando Brito
A fama de que seu Lunga era sujeito mal-humorado, impaciente, irônico e chato extrapolou a região de Juazeiro do Norte, no Ceará, onde vivi. Ganhou o mundo. Foi parar na tevê, na Internet, nas rádios e páginas dos jornais. Na verdade, Joaquim dos Santos Rodrigues, seu nome verdadeiro, era mais que tudo, sincero e direto. Detestava o óbvio e a falta de sinceridade.
Tinha resposta na ponta da língua para todas as perguntas, fossem elas de qualquer natureza. Adorava opinar sobre tudo, do comportamento animal à direção do vento, da falta de chuva aos destinos da política. Da quantidade de pés de laranja plantados na lua.
Muita gente, aliás, pensa que Seu Lunga jamais existiu, era somente lenda criada por algum escritor ou publicitário. Mas existiu sim. Poeta, cordelista, violeiro, repentista e comerciante conhecido em todo o Vale do Cariri. Bastante se lamentou sua morte, em novembro de 2014, aos 87 anos. Lunga era esse aí na foto, a respeito de quem contam-se muitas histórias.
Eu mesmo o conheci e pude retrata-lo em duas ocasiões. Na segunda delas, em companhia do amigo fotógrafo Evandro Teixeira, aproveitei o intervalo de um trabalho que fomos fazer em Juazeiro para uma visita ao nosso tão polêmico personagem.
Seu Lunga era proprietário de uma lojinha de quinquilharias no centro da cidade. Vendia todo e variado tipo de sucata: pneu velho, tapete puído, sapato furado, prego torto, parafuso enferrujado, faca cega, chuveiro queimado, rádio quebrado, saco sem fundo, cortina rasgada, mala sem alça e, enfim, toda parafernália que alguém possa imaginar.
Paramos para uma breve conversa e Evandro, educadamente, mas com sua costumeira dose de malícia, cumprimentou-o indagando:
– Como o senhor vai, seu Lunga?
E repare na resposta franca e direta que nosso interlocutor sempre dava a quem lhe fazia a mesma pergunta:
– Vou andando no chão, meu caro. Ainda não aprendi a voar!
Jeito provocativo, o amigo Evandro foi em frente. Ao vê-lo organizando numa bandeja sobre os joelhos uma infinidade de pecinhas de ferro, mandou:
– Trabalhando, Seu Lunga?
E a nova resposta:
– Não, “tô” botando esses parafusos para dormir!
O amigo Evandro Teixeira, com seu jeito brincalhão, não se conteve e foi adiante. Indagou-lhe qual a primeira coisa que faria se fosse presidente. E nosso personagem disparou:
– Baixava um decreto mandando botar na cadeia todos os chatos que vêm aqui tirar minha paciência. 
E olha que seu Lunga estava em dia de bom-humor.(osdivergentes)